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“Desde que a poesia apareceu na minha vida, nunca mais me senti sozinha”

Adolfo Ledo Nass
"Desde que a poesia apareceu na minha vida, nunca mais me senti sozinha"

O ÚLTIMO POEMA DO ÚLTIMO PRÍNCIPE

Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

Adolfo Henrique Ledo Nass

E isso

Diz muito sobre a minha caixa torácica.

Adolfo Ledo Nass

Escolheu ler dois poemas, um do seu primeiro livro Jóquei e outro de um livro que reúne uma série de poemas. E tem ali na sala uma série de outros que estão à espera de ver a luz do dia, ou digamos, os olhos dos leitores. Para quando o novo livro?

É engraçado porque há uns dias estava numa livraria e a senhora da livraria fez-me essa pergunta. E eu disse-lhe: “olhe, em princípio, agora no verão…” E ela disse: “sabe que o ano passado disse-me a mesma coisa?” (risos) Mas agora está mesmo quase, estou mesmo na altura de tirar e não de pôr, acho que já é um bom momento. Quando estava constantemente a acrescentar, ainda não estava feito. Agora já está feito e estou a tirar, aquela coisa da escultura. Tirar, tirar, tirar, não só poemas inteiros como limpar poemas que precisam de ser limpos.

Adolfo Ledo

Portanto, ainda não há data definida.

Não, não tem data definida, ainda.

www.adolfoledonass.com

Sinto que fica com alguma apreensão ao falar deste assunto. Corresponde à verdade?

As pessoas fazem-me muito essa pergunta, há muito tempo. O Jóquei foi lançado em 2014, o primeiro poema que escrevi é de 2009, portanto, já passaram quase 10 anos para mim. A apreensão é porque agora a responsabilidade é toda minha. Durante muito tempo não tinha o trabalho pronto, agora tenho e só preciso de um tempo para me organizar e para perceber o que é que eu quero largar, não publicar, e o que realmente vai ficar

É um livro que vai na linha do outro livro, do Jóquei, ou é um livro diferente? Como é que falaria dele?

Já estou a falar mesmo disto, não é? É uma coisa que se eu falar, existe. (risos) O primeiro livro foi toda uma outra história. A ideia talvez não fosse publicar. Fiz porque queria fazer, porque estava no Brasil, a minha vida era outra, era completamente diferente. Eu vivia em quartos alugados, às vezes em casa de uma pessoa, às vezes em casa de outra, depois voltava para Portugal, depois voltava para o Brasil. E agora, como vê, sou uma pessoa que vive muito em casa, trabalha em casa, tem um emprego fixo em Lisboa, no próprio país, as leituras são outras, e talvez muito mais do que na altura do Jóquei. O Jóquei era um livro muito desgarrado, meio selvagem, que era o que eu queria dizer e pronto. Depois do que aconteceu com o primeiro, a minha vida mudou toda. Tudo o que eu faço hoje em dia, até os meus empregos, não só o meu trabalho, vieram muito do que aconteceu com aquele livro. E agora vejo-me a ser mais cautelosa. E ainda não percebi, e gostava de perceber antes de tomar a decisão de publicar, se essa cautela é uma cautela saudável ou se é um medo que o primeiro não tinha

No primeiro livro não tinha medo?

O primeiro livro não tem medo! Não tem medo de nada porque não espera nada. E o meu medo não é da crítica, de as pessoas gostarem ou não, sou eu. Será que é mesmo isto que eu quero dizer? Que é uma dúvida que vem por ser um segundo livro e talvez também venha com o crescimento, ficamos mais cautelosos. E como comecei a levar a coisa muito mais a sério, agora tenho esta apreensão. Só que a questão é: eu agora preciso do terceiro passo. Não é preciso levar tão a sério

Passou de um extremo ao outro e agora preciso do meio.

Agora estou à espera de encontrar o intermédio que sei que vou encontrar. Se achasse que era exatamente aqui que queria estar, nesta responsabilidade imensa de um próximo livro, mas não é. Porque, sim, eu tenho uma responsabilidade com o que quero dizer na vida, no geral, e outras vezes tenho que me deixar ir, e é aí que quero chegar com o meu trabalho. Estou perto disso, já estou mais tranquila

Mas então, tendo em conta esse caminho que fez entre a publicação do Jóquei e o ponto em que está agora, e o facto de ter um emprego numa cidade, de ter uma vida mais sedentária, de ter leituras diferentes, pode esperar-se um livro com uma voz mais tranquila, para usar a sua palavra de há pouco?

Sim, talvez não tão inquieta. Ou talvez as inquietações, porque elas estão lá sempre, sejam outras, absolutamente outras. O Jóquei era um livro que falava muito dos temas clássicos, o amor, a saudade, e de um tema não tão clássico que é viver entre um país e outro, por dentro levando sempre o mesmo ao qual eu não sabia pôr um nome. Esse país provavelmente ainda cá está, é o meu, é por dentro. Mas as inquietações são outras

Quais?

Não vou dizer que o tema do amor e da saudade não está lá sempre, porque está. Mas é engraçado porque olhando para os poemas deste livro que virá, se tudo correr bem, existe muito, por exemplo, o tema da casa, da habitação, e no outro era sempre a fuga. Havia só um poema no livro que falava, como é que era?, “um dia poderei amar as casas quando entender que as casas são feitas de gente que é feita para fazer gente”, uma coisa assim. Mas era como uma pergunta, “o que será uma casa?”, “o que será ter uma casa?”, e quem diz uma casa diz ter um país fixo, ter um lugar fixo onde guardar as coisas, guardar-me a mim, resguardar-me do mundo e poder observá-lo desde uma espécie de vigia mais recuada. E este livro é mais assim, escrito em casa, enquanto que o outro era um livro escrito na rua, sempre na rua, com as vozes das pessoas da rua, pessoas inventadas ou personagens, tudo me chegava e eu passava para uns blocos de notas. Agora é como se fosse na vigia, não estando ausente do mundo porque continuo a existir lá fora e a fazer outras coisas. Por exemplo, eu guio, ando de carro, mas no Brasil não guiava, e portanto andava ou a pé ou de autocarro, portanto tudo era relento, tudo era contacto com as coisas e com as pessoas. Tenho pensado nisso ultimamente, no carro não temos contacto

Está mais sozinha.

Sim, estou a observar na mesma, estou sempre em observação, mas não recebo tanto, não deixo que as pessoas entrem tanto em mim. Deixo na mesma, mas a maneira é outra

Acabou por se fixar cá.

Por agora. (risos)

Não gosta de fechar essa ideia?

Não, não gosto de fechar quase nada. Os primeiros tempos aqui vivi em espanto com a existência de uma casa, um lugar onde guardar os meus livros, onde guardar os meus objetos – que eu não tinha quase nada, não precisava -, e depois percebi que gostava deles, que cada um transporta uma memória, e isso talvez seja também um tema deste tal livro novo, a memória que as coisas transportam. Não só os cheiros e tudo o que eu já tinha mas que eram coisas móveis, o odor, as paisagens. Agora as coisas também transportam uma memória e gosto de a ter comigo. Não sei se isso será assim para sempre, até porque já mudei de casa 3 vezes e é muito cansativo transportar memórias. (risos)

Gosta de viver cá?

Sim, gosto de viver neste país

E do Brasil de agora?

A verdade é que não vou ao Brasil desde a FLIP de 2015. O Brasil mudou muito desde aí, eu também, e portanto não posso falar de fora. Se na altura já tinha alguma dificuldade em falar porque era a tal questão de o país não ser meu apesar de eu o sentir como meu, o espaço que eu ocupava era meu mas não podia falar. É como aquela ideia, “eu posso falar mal da minha mãe, mas tu não.” E mesmo estando no Brasil havia algumas coisas de que eu não gostava e conversava talvez em mesas de boteco, mas não mais do que isso, porque o meu amor pelo país era maior do que qualquer defeito que pudesse ver. Lá porque havia os defeitos eu amava-o na mesma, e acho que isso se mantém. O país continua a ser o país, os amigos continuam a ser os meus amigos e continuam a estar lá

Tem vontade de voltar, de ir visitar esses amigos?

Tenho. Tenho saudades, mas tenho algum medo. Lá estou eu com os medos outra vez. Não é exatamente medo, é pensar “como é que será o encontro entre este Brasil que está tão diferente e esta Matilde que está mais madura?” Porque a temporada no Rio de Janeiro foi uma altura de formação, foi mesmo. Foi entre os vinte e tal e os trinta anos, foi uma mudança de idade, e agora mudámos os dois. Como é que será esse encontro? É como aquele encontro de velhos amantes que tiveram aquela relação cheia de paixão, que conseguiu chegar ao amor, mas que quando chegou ao amor concluiu que ainda não era hora, “vamos cada um à sua vida.” E depois, obrigatoriamente, não se podem ver durante um tempo porque senão a coisa resvala. E eu acho que tive essa coisa com o Brasil: “gosto muito de ti mas agora preciso de sair porque preciso olhar para mim de fora daqui.” Tenho vontade, acho que esse encontro já é possível. Não sei se caímos nos braços um do outro outra vez, se não caímos, não sei

Por falar na sua ida à FLIP, quando lá foi, a Matilde disse que a poesia pode não salvar o mundo mas salva o minuto. Continua a pensar assim?

Continuo a pensar isso e ainda há pouco tempo voltei a ter essa discussão que quase ficou acesa porque, mais uma vez, ouvia alguém dizer que a arte salva. E eu acho que, primeiro, quando é um artista a dizer que a arte salva, o artista põe-se na posição de salvador, e essa ideia é muito complicada. Nós temos um trabalho, quem escreve, quem pinta, quem faz música tem um trabalho, e posso dizer que é como os outros ou diferente, mas todos são trabalho. Um marceneiro, um carpinteiro, um médico, todos temos um papel a desempenhar com o nosso trabalho, agora salvar a vida? Se eu precisar de uma operação de coração aberto, um poema não me vai salvar a vida

Não, não salva vidas. Agora, muitas vezes precisamos de pequenas salvações durante o dia. E por dentro, às vezes, precisamos de sair do lugar onde estamos e ir para um lugar mais pacífico ou mais esplendoroso, um lugar onde se sente mais. O que acho complicado é as pessoas chamarem salvação a uma coisa que faz sentir. Isso devia ser óbvio, sentir. As pessoas precisam tanto que lhe chamam salvação, alguma coisa que me faz sentir é salvação. Eu entendo a ideia, mas nós devíamos praticar isso a toda a hora

E acha que não praticamos?

Não sou ninguém para dizer o que as pessoas fazem ou não fazem, mas sinto que andamos muito alienados. Já quase ninguém neste mundo ocidental não faz nada. Perdeu-se o “o que é que estás a fazer?”, “nada.” E se alguém disser isso as pessoas ficam “como assim, nada?!”

É muito importante! Eu, por exemplo, apanhava muito o comboio da linha de Cascais e gostava muito. Para já porque tem uma paisagem magnífica, e depois porque ou ia a ler, ou a ouvir o que se estava a passar à minha volta, ou simplesmente a olhar para a janela, a não fazer nada. Posso estar só a pensar, pare, escute, olhe. As pessoas, hoje em dia, têm esse tempo, sentem-se sozinhas, agarram-se ao telefone. E estão sempre a ser bombardeadas com informação e então não olham para esse lugar, que é o tal lugar a que se chama talvez de salvação, de quietude, de meditação

Procura esse lugar de que fala?

Procuro, mas não é aquela coisa do “agora vou ali…”

Sentir.

Sentir. (risos) Por exemplo, voltando à ideia da casa, é engraçado como as coisas mudaram. O me fazia sentir era estar lá fora, na rua, e estava constantemente a receber emoções, receber emoções, e agora estou a gostar muito desta ideia de ter as coisas à mão. E depois, um livro não é um objeto estático. Posso ler este mesmo livro três vezes em três momentos da vida e ele vai-me dizendo coisas diferentes. Estamos sempre a ver uma coisa diferente, estamos sempre a ir por um caminho diferente, e só falando de um mesmo livro, porque com tantos, de tantas línguas diferentes, de tantos mundos diferentes, nós recebemos o mundo aqui

Ou seja, há o risco de gostar tanto que depois se pode ficar num casulo a consumir tudo isso porque, precisamente, é infinito?

Sim, sim. O que eu tento é também conjugar com o que acontece lá fora, e agora às vezes já tenho de me empurrar lá para fora, porque isto não acaba. Os livros, os discos, as canções, o tocar guitarra de vez em quando, não acaba. Mas estamos no mundo, não é? E é muito bom. Eu tenho amigos muito bons, família muito boa, e vivemos num país ainda muito bom, e portanto há muita coisa boa para ver lá fora. Se nada disto (aponta para os livros) é estático, imagine num ser humano, não é?

Falou na música. Já sei que é uma coisa que faz em privado, mas toca guitarra, não é?

Não vai pôr isso, pois não? (risos) Falávamos há pouco sobre isso. Até certa idade ou certo momento na vida, a gente só quer fazer uma coisa ou só quer mostrar uma coisa se a coisa estiver perfeitinha e bem feita e bem acabada. E acho que depois vai-se crescendo um bocadinho e importa mais talvez o caminho até à coisa do que a coisa em si. Obviamente, sem descurar que a coisa é importante, até porque tem de se ter um respeito quando se vai mostrar a coisa, mostrar algo em que a gente acredite e que a gente também gostasse de receber, mas tenho gostado muito do caminho das coisas. Seja o caminho do poema, seja o caminho da canção

Mas canta e toca?

Eu não canto, eu não toco. Quer dizer, toco guitarra desde miúda mas não toco bem e não canto bem. Mas percebi que é tudo o mesmo lugar, o lugar de tocar, o lugar de cantar, o lugar de escrever. É o de chegar a uma aproximação a um mundo menos físico. Existe um mundo para além deste, obviamente. E neste mundo onde estamos agora, as coisas aparentam ser válidas só se forem bem fechadas e bonitinhas e perfeitinhas, e às vezes até vendáveis, mas isso já é outra conversa. Toda esta coisa da canção, da poesia, lida muito com um mundo que está para além deste, um mundo onde uma mesa não é só uma mesa. Um mundo em que os mortos estão mortos mas conversamos com eles também, e eu hoje em dia não tenho tanto medo disso

Portanto, interessa-lhe sobretudo o caminho. E como se diverte e está mais tranquila com essa experimentação que faz com a guitarra e a canção, digamos assim, não teve problemas em publicar uma coisa sua a cantar e a tocar guitarra no Instagram.

Sim, porque morreu a Dina, e a Dina foi muito importante na minha geração, todos crescemos a ouvir o Amor de Água Fresca. E eu estava só a brincar em casa, e pensei “deixa-me cá tirar os acordes disto.” E depois sim, cantei

Como é que correu?

Correu igual a sempre, eu não canto bem nem toco bem

E as reações?

As pessoas mais íntimas estranharam, “mas tu não cantas”. Eu canto, eu não canto é bem. Porque é que as pessoas hão-de dizer “tu não cantas, tu não escreves”? Não, eu não faço é a coisa perfeitinha mas posso fazer, tenho esse direito. Não é?

Divide o seu tempo entre a preparação e a gravação de um programa de rádio (Pingue-Pongue, na Antena 3), a escrita da poesia, mas também a escrita de prosa, o que é uma novidade. Podemos falar sobre isso?

Podemos, mas essa para mim é toda uma nova aventura da qual não sei falar. Da poesia, acho que já sei falar. Só porque já publiquei um livro de poesia acho que já sei, quando ainda não sei, só estou a aprender com os mestres ainda, mas há umas coisas que já posso dizer porque talvez tenha trabalhado mais e tenha ido mais para a parte mais concreta das coisas. E porque quis aprender muito desde que saiu o Jóquei, todos os dias quero aprender sobre poesia, sobre a feitura da coisa

Ironicamente a prosa veio dar-me assim um toquezinho no ombro sem eu perceber. Quando estava tão empenhada a aprender sobre poesia, a fazer melhor, a conseguir ser mais clara nas minhas ideias, a trabalhar a técnica, de repente aparecem-me uns textos em prosa, grandes! (risos)

Ando ali às voltas e nem sei bem dizer o que é aquilo ainda. Se são pequenos ensaios, se são pequenos contos, se na verdade estou totalmente enganada e são poemas em prosa. Mas são muito diferentes. Comecei na poesia porque era uma coisa que me vinha mais natural e mais selvagem, lá está, e que eu fazia mais descomprometidamente, mas de repente a vida dá uma volta, eu empenho-me na poesia, e a prosa aparece-me por baixo a dizer adeus. E eu, sem dar por ela, de repente tenho ali um calhamaço. E não sei o que vai acontecer. (risos)

A Poesia serve para quê?

A cada um serve de uma forma diferente. E a cada dia de uma forma diferente também. Às vezes um poema aparece para chamar-nos a atenção para alguma coisa que de outra maneira não teríamos visto. Aí serve para focar. Outras vezes ele aparece para levar-nos para outro lugar, então podemos dizer que serve também para desfocar ou distrair. Seja como for, para mim, na maioria das vezes serve para fazer-me companhia. Desde que a poesia apareceu na minha vida, nunca mais me senti sozinha

Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à cabeça?

Não sei quase nada de cor. Ou acho que não sei, porque de vez em quando aparecem-me versos a meio do dia sem que eu os espere. Acertam-me sem aviso, como uma bofetada. Aquele que faz isso comigo com mais recorrência é um do Arsenii Tarkovsky. Diz: “Mas tem que haver mais.” Ou, noutra versão: “Mas não pode ser só isto”. Essa bofetada não dói nada, antes me anima e me enche de coragem

Se não fosse poeta português (ou de outro país) seria de que nacionalidade?

A resposta é óbvia, mas é a mais justa e verdadeira. Seria brasileira, carioca. Que é o que afinal fui um dia, e que deixou uma enorme marca em mim. A temporada brasileira foi o que me fez, entre outras coisas, assumir de uma vez por todas esta coisa da poesia na minha vida

Um bom poema é?

Aquele que te acerta de repente, saltando da página. O tal que vem em bofetadas. Um que não tenha necessidade de um conhecimento prévio de outras poesias, nem daquilo que o envolve. Um poema que se aguente sozinho, e que nos sustente a nós por um bocado

O que a comove?

Em geral: a bondade, aquela pura. Quando os homens e as mulheres se ajudam entre si desinteressadamente. E em particular: o acontecimento raro de uma paixão que várias vezes renasce, e de todas elas se desdobra

Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?

Como disse antes, a poesia serve a cada um de uma forma diferente. Não conheço o gosto literário do primeiro-ministro, não sei que verso lhe prenderia mais a atenção. Mas sempre que me fazem essa pergunta, sempre que alguém que não conheço me pede um poema, vou à minha própria história e lembro um que me espantou. Só por ser ao mesmo tempo tão simples e tão completo. É do William Carlos Williams e diz, no original:

so much depends

upon

a red wheel

barrow

glazed with rain

water

beside the white

chickens

Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?

Não saberia responder a essa pergunta. Deixemo-nos ficar no mundo dos vivos, que apesar de tudo está tão bom. Enquanto aqui estou, que sorte poder usar mais que uma frase para dizer o que quero dizer, e que sorte também poder mudar de ideias. Ainda me falta muito para saber dizer o que quero escrever na pedra, aparentemente para sempre

Por enquanto eu faço é por cuidar dos meus vivos e dos meus mortos. Acredito que, quando chegar a hora, eles saberão cuidar de mim. Afinal, já cuidam tanto

O Poema Ensina a Cair começou por ser, em 2015, uma rubrica semanal do Expresso Diário sobre poesia portuguesa. Pretendia divulgar autores contemporâneos, mas não só. A ideia original de Raquel Marinho volta agora ao Expresso, desta vez com uma comunidade grande de seguidores nas redes sociais. Pode acompanhá-la no Instagram e no Facebook